A imagem de analisadores de imagem
Destaques da conversa
7 de dezembro de 2005
Edição: Norma Devine
Tradução: Francisco M.
Revisão Técnica: Dr. João França
Lopes
Na quarta-feira, 7 de dezembro de 2005, o Dr.
Jonathan Myers, especialista em glaucoma do Wills,
e o grupo de “chat” sobre glaucoma discutiram "A
Imagem de Analisadores de Imagem."
Moderador: Nosso
tópico é "A Imagem de Analisadores de Imagem."
O que são analisadores de imagem?
Dr. Jonathan Myers: São
as máquinas mais novas que fornecem imagens do nervo óptico.
Muitos de vocês podem ter ouvido falar do OCT, HRT, ou GDx.
OCT (tomografia de coerência óptica) apresenta imagens
3D de "fatias" ópticas finas da camada de fibras
nervosas da retina. HRT (Tomógrafo de Retina Heidelberg)
escaneia a superfície do nervo óptico e retina,
mantendo o foco. GDx (Polarimetria de Escaneamento a Laser) provê
uma medida da espessura da camada de fibras nervosas da retina.
P: A maioria de
nós aqui sabe que temos glaucoma, assim estamos mais interessados
em detectar progressão do que em diagnóstico. As
máquinas novas são boas em detectar progressão?
Dr. Jonathan Myers: Todas
estas máquinas estão tentando analisar o nervo óptico
e a camada de fibras nervosas para procurar dano glaucomatoso
e dano adicional. Porém, há muito mais evidência
na eficácia destas máquinas em diagnosticarem do
que há no que diz respeito à progressão.
Foram publicados só alguns estudos relativos à progressão.
O melhor é o de B. Chauhan, na Nova Escócia.
Naquele estudo, foram acompanhados 77 pacientes durante aproximadamente
5 anos. Durante aquele tempo, aproximadamente um quarto piorou
no teste de campo visual e no HRT. Só 1 ou 2 pacientes
pioraram no teste de campo visual, mas não no HRT. E aproximadamente
40% ficaram piores no HRT, mas não no campo visual. Isso
sugeriu a alguns que o HRT poderia estar registrando dano mais
cedo, mas não há nenhuma prova clara.
Moderador: Como estes resultados se compararam com o exame do
nervo óptico pelo médico?
Dr. Jonathan Myers: Estudos mostraram que os aparelhos de imagem
do nervo óptico normalmente, mas não sempre, correspondem
aos resultados clínicos do médico. Em casos onde
eles diferem do exame do médico, qualquer um poderia estar
correto. Freqüentemente o médico e a máquina
estão olhando para dois aspectos diferentes da anatomia
e fisiologia, assim ambos podem ser certos, até mesmo se
eles parecem discordar.
P: Testes de campo
Visual são tão precisos quanto o paciente que faz
o teste. Quão acurado é um HRT?
Dr. Jonathan Myers: Você tocou num assunto importante:
confiança e reprodutividade. Todos nós sabemos que
testes de campo visual têm um componente "humano”.
Os aparelhos de imagem do nervo óptico também têm
problemas de variabilidade. O paciente ainda está atento?
Uma catarata está obscurecendo a melhor imagem? O técnico
é o melhor técnico? Por isto, também há
um pouco de variabilidade nos aparelhos de imagem do nervo. Em
estudos importantes, a variabilidade nos aparelhos de imagem do
nervo não é muito ruim. Porém, a variabilidade
do teste de campo visual é freqüentemente melhor que
no “mundo real”.
É muito importante que o técnico seja muito bem
treinado para estas máquinas, e que o médico não
confie em achados quando a qualidade do estudo não for
boa.
P: Eu tive dois HRT, e ambos informaram muitos
números. Algum é especialmente relevante para a
progressão de glaucoma?
Dr. Jonathan Myers: O relatório destas máquinas
tem uma variedade de medidas e índices, muitos comparados
à média dos pacientes "normais". No caso
do HRT, isto inclui medidas do tamanho e forma do disco óptico,
tamanho, forma, área da borda e volume da escavação,
e topografia. Adicionalmente, os valores do paciente são
comparados em seis setores contra valores correspondentes de um
banco de dados para pacientes normais, de idade e raça
semelhantes no HRT.
O GDx tem medidas semelhantes, mas derivou de aspectos diferentes
da camada de fibra do nervo, indo do nervo óptico para
a retina periférica.
O relatório do OCT também é parecido. Todos
eles têm modos para apresentar os resultados de cada achado
novo em comparação ao último exame. Relativo
a isto, a análise do HRT é a mais sofisticada.
P: Que testes, além da pressão intra-ocular (PIO)
e campos visuais, um paciente diagnosticado com glaucoma deveria
fazer e com que freqüência?
Dr. Jonathan Myers: Os testes padrões para pacientes de
glaucoma de acordo com recomendação da AAO (Academia
Americana de Oftalmologia) inclui freqüente medida da PIO,
teste de campo visual anual, e desenho e/ou foto ou imagem do
disco, e gonioscopia.
P: Quanto treinamento os oftalmologistas recebem para avaliar
os novos dispositivos e para usar aquela informação
no diagnóstico e gerenciamento do tratamento de pacientes
individuais?
Dr. Jonathan Myers: Como estas máquinas são novas,
a maioria dos oftalmologistas teve pequeno ou nenhum treinamento
para interpretar seus resultados. O treinamento que os médicos
recebem é normalmente das pessoas que vendem as máquinas,
artigos de jornal, nos encontros nacionais e aulas.
P: Não é fácil para os clínicos serem
influenciados pelo entusiasmo dos novos dispositivos, não
só pela ciência, mas também pelo “marketing”
e reembolso?
Dr. Jonathan Myers: Clínicos, como todos nós, são
influenciados por muitas coisas. A maioria põe o bem-estar
do paciente em primeiro lugar, e está ansioso para achar
modos novos, mais fáceis para monitorar, diagnosticar,
e tratar uma doença como o glaucoma. As máquinas
são novas e flamejantes, e há um elemento de "manter
o ritmo dos vizinhos" que empurra os médicos para
comprá-los. Some a isto o reembolso razoável para
o teste, e que há companhias que os comercializam agressivamente
com promessas de grandes resultados, e você tem um modo
para adquiri-las rapidamente. A ciência por trás
das máquinas estava perdendo para o “marketing”
alguns anos atrás, mas o alcançou agora.
P: No GDx, o que indica uma área azul?
Dr. Jonathan Myers: A cópia impressa do GDx codifica regiões
mais grossas e mais finas da camada de fibras nervosas com cores
diferentes. Em geral, áreas mais grossas são áreas
laranja, mais finas, azul. Nós esperamos que a camada de
fibra do nervo seja mais grossa nas regiões inferior e
superior, e mais fina para os lados do nervo óptico. Esta
é a forma de “cálice” típica,
com uma expansão laranja acima e abaixo, lembrando a forma
de um cálice. Um padrão semelhante é visto
com o OCT e o HRT, mas a exibição de cópia
impressa é como um gráfico, monocromático,
assim as regiões mais grossas acima e abaixo se mostram
como duas corcovas que correspondem a essas áreas (o padrão
de dupla corcova).
P: Que papel estas máquinas novas têm no gerenciamento
do glaucoma?
Dr. Jonathan Myers: Muitos médicos estão usando
as máquinas agora para complementar seus exames. As máquinas
podem confirmar suspeitas de patologia, e freqüentemente
podem alertá-lo de pistas sutis para problemas. Até
agora, as máquinas não se mostraram suficientemente
boas para substituir o exame cuidadoso da cabeça do nervo
óptico pelo médico, nem o teste de campo visual.
As máquinas ajudam a observar piora sutil ("progressão")
que pode ser difícil de se observar. É como procurar
agulha num palheiro.
P: Você pode citar um exemplo de uma pista sutil que um
médico poderia perder, mas uma máquina poderia descobrir?
Dr. Jonathan Myers: Às vezes, áreas pequenas de
dano, como uma fenda, ou defeito minúsculo, só em
uma área do nervo, podem ser difíceis de apreciar
em exame rotineiro. A máquina pode detectar isto, pode
fazer com que isto seja óbvio na cópia impressa,
e pode permitir ao médico olhar novamente o paciente, e
então notar a fenda. Por outro lado, uma hemorragia de
disco, uma mancha minúscula de sangue no nervo óptico,
também é um sinal de que o glaucoma pode estar piorando.
Nenhuma das máquinas atuais descobrirá hemorragias
de disco, mas os médicos podem vê-los em exame cuidadoso
do nervo. É por isso que o médico e a máquina
complementam-se um ao outro.
P: Assim, então, o padrão de testes necessários
pode estar mudando para incluir algumas destas máquinas
novas logo, mas quão necessário ou útil elas
são?
Dr. Jonathan Myers: O padrão de atenção
sugerido atualmente é desenho e fotografias do nervo óptico.
Nós sabemos que daqui a 20 anos, uma fotografia será
útil ao ser olhada. Em 20 anos, um ou mais destas máquinas
podem ser história antiga, e assim seus relatórios
impressos podem ser inúteis a longo, longo prazo. Eventualmente,
um ou mais destas máquinas se tornará o padrão
de atenção, eu acredito. Nós as usamos atualmente
para a maioria dos pacientes no Serviço de Glaucoma do
Wills, e as achamos úteis. Mas, novamente, elas não
substituem nossas outras ferramentas.
P: Não há também um componente subjetivo
no HRT em que o clínico (não o técnico, eu
suponho) tem que delinear o esboço do disco? Ou eu entendi
errado, e o programa determina ou extrapola a borda do disco do
escaneamento de referência inicial?
Dr. Jonathan Myers: Você está certo: o HRT I e o
HRT II exigem que o médico ou técnico esbocem o
disco. Isso influencia a análise da máquina do que
é "normal" versus "glaucoma", mas não
influencia sua habilidade para monitorar progressão a longo
prazo. O HRT III (há pouco liberado) aparentemente não
requer esboço do disco. O OCT e GDx também não
requerem esboço do disco.
P: Se uma pessoa tem visão de túnel em um olho,
quão precisa é a leitura que o médico pode
obter com um teste de campo visual? Com visão de túnel
quero dizer visão clara à frente, mas a visão
para os lados, para cima ou para baixo é distorcida ou
dupla.
Dr. Jonathan Myers: Com "visão em túnel"
ou uma "ilha central", é importante ajustar os
parâmetros de teste de campo visual para obter o melhor
do teste. É inútil testar a periferia distante quando
ela já foi. Deveria ser gasto mais tempo e atenção
no centro. Nestes pacientes, observar a ilha central restante
é importante, para ajudar a preservar o que restou.
Isso traz a tona um ponto relativo aos aparelhos de imagem. Geralmente,
eles são melhores em analisar glaucoma leve a mediano.
Em glaucoma avançado, quando a maior parte do nervo óptico
está danificada, há menos a escanear, e os analisadores
de imagem são muito menos úteis em descobrir dano
progressivo. Quanto ao tema, com dano de disco avançado,
um analisador de imagem não é preciso para saber
que há progressão de dano referente a glaucoma.
P: Em que porcentagem de perda de visão os testes de campo
não são mais úteis?
Dr. Jonathan Myers: Quando o paciente não puder ver pelo
menos constantemente vários pontos, então o teste
de campo não pode ser usado para procurar mudança
progressiva, e não será útil. Isso pode acontecer
em diferentes níveis de perda de visão, dependendo
da situação clínica exata. Normalmente, é
quando a visão está abaixo de 20/400, ou um campo
de muito menos que 10 graus.
P: Não é verdade que mesmo a medida da pressão
intra-ocular pode variar de médico para médico,
no mesmo dia, na mesma máquina?
Dr. Jonathan Myers: A variabilidade entre dois médicos
experimentados usando tonômetros calibrados deveria estar
dentro de 1 ou no máximo 2 mm Hg de pressão. A variabilidade
na pressão da manhã à noite pode ser muito
mais que isto para um determinado paciente, assim a hora do dia
importa muito, também. Neste momento, nós não
temos um modo para medir a pressão continua ou freqüentemente,
o que ajudaria muito.
P: Minhas cópias impressas de HRT listam mudanças
de medida de partes do nervo óptico. Alguns são
números negativos; alguns são positivos. Adicionalmente,
as figuras são muito pequenas--centésimos ou milésimos
de milímetro. Tais minúsculas mudanças têm
significância ou conseqüência?
Dr.
Jonathan Myers: Para a maioria
dos parâmetros em quaisquer destas máquinas, uma
mudança de mais que 10% do valor (por exemplo, 0.1 mm2
em 1 mm2 ou 0.02 mm2 em 0.2 mm2) é necessária antes
que você possa estar seguro que a mudança é
real e não só flutuação. Quase qualquer
mudança significante merece um novo teste para confirmação.
Pequenas mudanças são normalmente só "ruído"
no sistema -- movimento, opacidades (como cataratas ou problemas
de lágrima), problemas com o técnico, etc.
P: Eu acharia que um teste de campo visual que não exija
que o paciente pressione um botão, mas de alguma maneira
pudesse medir um campo sem qualquer intervenção
do paciente conduziria a um teste mais preciso.
Dr. Jonathan Myers: O Acumap é uma alternativa nova ao
teste de campo que observa as ondas cerebrais, como um EEG, para
medir a habilidade de um paciente para ver luzes. Estamos trabalhando
com o Acumap para ver como ele se compara ao campo visual padrão.
Há muitos desafios técnicos--espessura de crânio,
“sonho acordado” (day dreaming) dos pacientes - -
que podem afetar o teste. Assim, nossos resultados preliminares
sugerem resultados semelhantes aos campos, mas não temos
certeza contudo se ele pode substituí-los. Sabemos que
embora leve duas vezes mais tempo que um teste de campo padrão,
os pacientes gostam muito mais dele.
P: Como todos nós gostaríamos de algo como o Acumap
e o novo tonômetro que mede a PIO com a pálpebra
fechada! Nenhuma gota anestésica necessária nos
olhos.
Dr. Jonathan Myers: Concordo. Porém, achamos o tonômetro
de sobrepor à pálpebra tristemente inexato.
P: Como a gonioscopia pode ser útil?
Dr. Jonathan Myers: Gonioscopia é crucial ao diagnostico
e classificação do glaucoma. Saber a anatomia do
ângulo é crucial para conhecer o tratamento apropriado
para um determinado paciente. Com o passar do tempo e com os tratamentos,
podem mudar os resultados da gonioscopia, e assim nós normalmente
a repetimos a cada um ou alguns anos.
P: Como são descobertos "floaters" e descolamento
de retina?
Dr. Jonathan Myers: Normalmente podem ser vistos e avaliados
em exame biomicroscópico de lâmpada de fenda pelo
clínico. Não há bom método de escanear
“floaters”, e o tratamento limita-se à observação
e monitoramento de qualquer sinal de descolamento de retina.
P: Embora eu faça um HRT anualmente, meu médico
ainda se recusa a basear muito da sua avaliação
em seus números. Ele insiste que o programa ainda está
evoluindo, e sua real utilidade será provada em retrospecto.
Que aspecto do programa do HRT necessita ser melhorado nas gerações
sucessivas do programa para fazê-lo um teste objetivo mais
robusto?
Dr. Jonathan Myers: Não sabemos muito sobre o desempenho
a longo prazo (mais que 5 anos) de quaisquer destes instrumentos
em comparação a medidas tradicionais. Um estudo
de 10 anos em um número grande (mais que 100) de pacientes
comparando perda de campo progressiva, dano no analisador de imagem,
exames do clínico, e outras medidas, seria imensamente
útil. Alguns clínicos se preocupam porque algum
dano inicial achado com estas máquinas pode não
se mostrar correlacionado com outras medidas com o passar do tempo.
Estudos sugerem que os analisadores serão cada vez mais
úteis, mas seu médico não está errado.
Nós apenas não estamos convencidos ainda.
Moderador: Obrigado, Dr. Myers. Grandes respostas.
Dr. Jonathan Myers:
Foi um prazer estar com vocês todos. Feliz, saudável
ano novo para todos! Boa noite.
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