Complicações que Acompanham Implantes de Drenagem
Destaques da conversa
1 de fevereiro de 2006
Edição: Norma Devine
Tradução: Francisco M.
Revisão Técnica: Dr. João França
Lopes
Na quarta-feira, 1° de fevereiro de 2006, Dr. Rick Wilson,
especialista de glaucoma do Wills, e o grupo de conversa sobre
glaucoma discutiram "Complicações que Acompanham
Implantes de Drenagem."
Moderador: Bem-vindo
novamente, Dr. Wilson. O senhor poderia,por favor, começar
a discussão sobre implantes de drenagem descrevendo sua
função?
Dr. Rick Wilson:
Um implante é um dispositivo que leva fluido de um lugar
e entrega em outro. Eles foram iniciados com líquor para
hidrocefalia. No olho, um implante leva fluido das câmaras
anteriores ou posteriores e passa-o através de um tubo
para um prato costurado no equador do olho, quer dizer, no meio
do caminho para trás, protegido pelos ossos orbitais.
Moderador: São
todos os implantes do mesmo tamanho?
Dr. Rick Wilson: Os implantes vão desde implantes para
crianças que eu acho que têm só aproximadamente
65 mm² (mas não confie neste valor) a moderados, com
250 mm², e grandes, com 350 mm². Nós tínhamos
um que media 500 mm², mas não deu melhor resultado
e ocasionou mais complicações. O implante infantil
é do tamanho de um botão de camisa. O maior é
tão grande quanto seu dedo polegar da ponta à primeira
junta.
P:
De que tipo de material são feitos os implantes?
Há alguma chance do corpo rejeitar um implante como um
corpo estranho?
Dr. Rick Wilson: Os materiais normalmente são silicones
de ótima qualidade ou polimetilmeticrilato, que são
biologicamente inertes. Eu não acredito que eu alguma vez
tenha visto uma rejeição real.
P: Implantes geralmente são considerados só depois
que trabeculectomias tenham sido mal sucedidas, ou eles às
vezes são feitos antes que uma trabeculectomia seja tentada?
Dr. Rick Wilson: As indicações para um implante,
em lugar de uma trabeculectomia, são como segue:
- Uma trabeculectomia anterior mal sucedida, mas bem feita,
com mitomicina C
- Conjuntiva muito cicatrizada que não permita a realização
de um reservatório conjuntival
- Neovascularização em glaucoma neovascular ainda
não estabilizado após PFC (panfotocoagulação
a laser), com PIO (pressão intra-ocular) elevada que
obriga a cirurgia
- Episódios recorrentes de inflamação intra-ocular
severa
- Síndrome ICE (irido-corneana endotelial) agressiva
- Abertura interna de implante colocado em frente à LIO
(lente intra-ocular) na câmara anterior para evitar encarceramento
vítreo em pacientes em que você não quer
fazer um VPP (vitrectomia via pars plana)
- Uso de lente de contato é essencial para o paciente.
P: Implantes estão sendo usados em crianças pequenas?
Dr. Rick Wilson: Nós estamos começando a usar implantes
em crianças pequenas que não precisam de pressões
realmente baixas para controlar seu glaucoma, por causa do risco
de infecções da bolha a longo prazo em alguém
que não deve prestar atenção aos sinais de
advertência.
P: Como a visão é afetada pela cirurgia de implante,
a curto e longo prazo?
Dr. Rick Wilson: Normalmente, a visão não é
borrada pela inserção do implante mas pela mudança
na PIO. Se a pressão fica muito baixa, muitas pessoas desenvolvem
fluido entre as camadas do olho, chamado um descolamento de coróide.
Isso mantém a PIO anormalmente baixa, e distorce a retina
de forma que a visão pode ser reduzida a contar dedos.
Moderador: A maioria das complicações com cirurgias
de implante está relacionada ao dispositivo mecânico
em si ou ao olho de quem o recebe que não responde como
esperado?
Dr. Rick Wilson: O prato impede o tecido de cicatrização
de alcançar o tubo, fechando-o. Uma vez que tecido de cicatrização
desenvolve-se ao redor do prato, quando o humor aquoso flui para
fora do tubo, é contido nesta bolsa de tecido de cicatrização.
A espessura do tecido de cicatrização e o tamanho
do prato determinam a PIO resultante.
Moderador: Quais são alguns dos tipos de complicações
que podem acontecer após uma cirurgia de implante?
Dr. Rick Wilson: Uma idéia sobre implantes é que
eles são apenas canos. Se o implante não estiver
trabalhando, a abertura interior do tubo deve estar entupida com
a íris, sangue, etc. Você pode ver a abertura interior
do tubo para constatar se humor vítreo ou algo o está
bloqueando. Se a outra extremidade do tubo for o problema, normalmente
é causado por excesso de tecido de cicatrização
ou tecido de cicatrização comprimido ao redor do
prato que está causando a PIO mais alta.
P: Como o senhor limpa o tubo?
Dr. Rick Wilson: Se o problema é humor vítreo,
a geléia transparente que preenche a parte de trás
do olho, às vezes ela pode ser destruída por laser.
Se for sangue, ou íris, cirurgia pode ser necessária
para removê-lo. Enquanto a taxa de sucesso com implantes
é mais alta que com trabeculectomia, a PIO normalmente
não é tão baixa quanto com trabeculectomias.
Podem ser exigidas uma ou mais cirurgias para alcançar
a taxa de sucesso máxima.
Moderador: O que pode ser feito sobre a formação
de tecido de cicatrização na área do prato?
Dr. Rick Wilson: Nós temos tentado enxaguar a área
com mitomicina, mas nossos estudos mostram que depois de alguns
meses isto pouco ajuda. Porém, os britânicos ainda
acreditam naquela técnica.
P: Após quantos implantes que falharam devido ao tecido
de cicatrização o senhor reconsidera se é
aconselhável implantar outro? Se outro implante não
é aconselhável, o que pode ser tentado em seguida?
Dr. Rick Wilson: Normalmente, eu uso dois pratos acima em um
paciente com visão binocular, quer dizer, vendo com ambos
os olhos em conjunto. Em pacientes com um olho, eu uso dois pratos
acima e um debaixo, num total de três. Se o número
máximo de pratos não controlou a PIO (pressão
intra-ocular), então nós temos que adicionar ciclofotocoagulação
para reduzir a quantidade de fluido que o olho produz para igualar
a quantidade de fluido que sai nos reservatórios do implante.
P: O que é ciclofotocoagulação?
Dr. Rick Wilson: Ciclofotocoagulação é um
procedimento no qual um laser é aplicado ao corpo ciliar
(a parte do olho que faz o fluido) para que o olho não
faça muito fluido.
P: Três implantes parecem-me um número alto quando
dois implantes já falharam devido à formação
de tecido de cicatrização. Qual é o pensamento
quando se decide por um terceiro? Ciclofotocoagulação
ou CFE (ciclofotocoagulação endoscópica)
são tão mais arriscadas? Por que não fazê-las
após um implante ter falhado?
Dr. Rick Wilson: Nós normalmente adicionamos pratos se
o primeiro prato foi parcialmente bem sucedido; por exemplo, a
PIO (pressão intra-ocular) diminuiu de 44 para 28 mm Hg.
Talvez o aumento da área de drenagem controle a PIO. É
importante esperar passar a “fase da bolha alta", quando
o tecido de cicatrização ao redor do prato é
denso. Depois de quatro meses, o tecido de cicatriz pode remodelar-se,
com mais poros para o escoamento do humor aquoso, e a PIO pode
cair sem qualquer manipulação.
P: Pode um sangramento durante a cirurgia de implante ser prevenido
se feito mais suavemente? Minha mãe disse que sentia como
se o implante estivesse comprimindo para dentro. Infelizmente,
agora, 2 1/2 anos e cinco cirurgias depois, ela não tem
nenhuma visão no único olho bom que ela tinha. Ela
está muito deprimida.
Dr. Rick Wilson: Normalmente, sangramento só é
um problema naqueles pacientes com glaucoma neovascular que tiveram
uma obstrução de veia na retina, ou diabete grave,
que causam o crescimento de novos e frágeis vasos na superfície
da íris e sobre o trabeculado, ou em pacientes mais idosos
se a PIO cai a níveis muito baixos depois que o implante
começa a funcionar. Sem o apoio da pressão no olho
empurrando a camada mediana do olho, a coróide (que é
composta inteiramente de vasos), contra a parede do olho, um ponto
fraco nos vasos pode se romper e causar hemorragia entre a esclera
e a retina. Isto ou pode ser devastador, ou só um problema
a curto prazo, dependendo da extensão.
P: Qual é a gama da pressão pós-operatória
que pode causar o sangrando coroidal?
Dr. Rick Wilson: Varia com a saúde da coróide.
A maioria das pessoas tem hemorragia com PIO abaixo de 8 mm Hg.
Quanto mais baixo a PIO, menos apoio para a coróide, e
mais perigosa a situação.
P: Se não há diabetes e nenhuma história
de ser hemofílico, por que o sangrando ocorreria?
Dr. Rick Wilson: O colesterol que reveste a parede do vaso pode
fazer os vasos rígidos. Quando a PIO é baixa, os
movimentos do olho fazem a parede do olho dobrar, curvando aqueles
vasos que não estão acostumados a serem curvados
e possivelmente causando sua quebra. Os sangramentos freqüentemente
acontecem quando o paciente está dormindo e sonhando, isso
é, no sono REM (movimento rápido do olho).
Moderador: Obrigado
por vir hoje à noite embora o senhor esteja gripado. Nós
lhe desejamos uma rápida recuperação.
|