Métodos para Avaliação Clínica
Destaques da Conversa
22 de março de 2006
Edição: Norma Devine
Tradução: Francisco M.
Revisão Técnica: Dr. João França
Lopes
Na quarta-feira, 22 de março de 2006, Dr. Jeff Henderer,
especialista em glaucoma do Wills, e o grupo de conversa sobre
glaucoma discutiram "Métodos para Avaliação
Clínica."
Moderador: O tópico
desta noite é "Métodos para Avaliação
Clínica." Dr. Henderer, o que deveria ser incluído
numa avaliação clínica de glaucoma?
Dr. Jeff Henderer: Bem,
o primeiro passo sempre é obter uma história. Isto
inclui informação sobre sintomas visuais e história
familiar. Também incluiria coisas como história
de pressão intra-ocular (PIO) e doenças como pressão
sangüínea baixa, enxaquecas, diabetes, e assim por
diante.
Moderador: O que vem em seguida?
Dr. Jeff Henderer: O próximo passo é examinar o
olho. Você precisa olhar cuidadosamente o nervo para ver
se o glaucoma está presente. Uma vez completada a história
e o exame, então você conclui se a doença
está presente e o que fazer com ela.
Moderador: Quais são as ferramentas principais usadas na
avaliação clínica?
Dr. Jeff Henderer: As ferramentas principais são os olhos,
ouvidos e cérebro do médico. Ferramentas auxiliares
incluiriam o tonômetro de aplanação para medir
a PIO, o teste de campo visual, e talvez imagem do nervo óptico.
P: Como você
usa seus ouvidos ao fazer uma avaliação?
Dr. Jeff Henderer: Você tem que escutar os pacientes. Se
eles estão dizendo a você que eles têm um problema,
eles têm um problema. Eu me lembro quando era um residente,
alguns dos residentes mais antigos gostavam de dizer que eles
não se preocupavam em escutar os pacientes. Eles os examinariam
e então lhes diriam o que os estava incomodando. Isso é
passado. A história precisa guiar o exame. Isso é
especialmente verdade na doença avançada, quando
há pouco nervo óptico e campo visual remanescente
a acompanhar.
P: Como o senhor decide quais testes são necessários?
Todos os suspeitos precisam de todos os testes?
Dr. Jeff Henderer: Na minha cartilha, todos os suspeitos precisam
de documentação do seu estado atual. Isso significa
medidas de PIO e documentação do nervo. Testes de
campo visual são úteis. Outros testes, como imagem
do nervo óptico, são muito promissores, mas nós
não temos informação suficiente para dizer
que eles são melhores que o médico.
P: Você sempre mede a espessura central da córnea?
Dr. Jeff Henderer: Eu meço a espessura corneana. É
um fator de risco importante. Não porque você pode
corrigir a PIO. Talvez você possa; talvez não. Não
há nenhum nomograma que você possa usar. A maioria
de nós prefere pensar em termos de "fina," "normal,"
ou "espessa." Fina significa risco mais alto. Espessa
significa risco mais baixo. Uma das coisas interessantes que eu
ouvi no encontro da AAO (Academia Americana de Oftalmologia) no
outono passado foi que a rigidez corneana, e não a espessura
da córnea, por si, deveria ser a medida mais importante.
P: O que é rigidez corneana?
Dr. Jeff Henderer: Confesso que não tenho muito conhecimento
sobre rigidez corneana, além de dizer que uma córnea
mais "dura" não vai ceder tão prontamente
ao tonômetro de aplanação. Então, isto
resultará numa PIO falsamente elevada. É provavelmente
verdade que córneas mais grossas sejam rígidas,
mas nem sempre. Por exemplo, o edema corneano deve causar uma
córnea espessa, que é macia e flexível. Atualmente,
medir a rigidez corneana não é realmente possível,
exceto em ambientes de pesquisa.
P: Quão importante é a gonioscopia?
Dr. Jeff Henderer: Bem, para mim, gonioscopia é muito útil
quando o paciente tem glaucoma, e eu quero determinar qual é
o tipo. Para um suspeito de glaucoma, eu não estou pensando
no ângulo. Para pacientes de glaucoma, entretanto, eu estou.
Todo paciente deveria fazer gonioscopia.
P: Quando um suspeito de glaucoma chega com pressões elevadas,
por que o senhor não está pensando no ângulo?
Um amigo meu que é um suspeito de glaucoma com PIO altas
foi examinado hoje por um especialista em glaucoma. Suas pressões
estavam entre 13 e 19, não entre 20 e 29, seus ângulos
eram estreitos, e ela precisa de cirurgia à LASER.
Dr. Jeff Henderer: Bem, eu imagino ser um pouco de semântica.
Eu não considero um paciente com “ângulos estreitos"
um suspeito de glaucoma. Um ângulo estreito é uma
questão anatômica que não tem nada a ver com
glaucoma. É verdade, ângulos estreitos podem levar
a um "ataque de glaucoma", mas há muitos pacientes
de ângulo estreito que nunca adquirirão glaucoma.
Eu estava me referindo ao paciente em quem o nervo óptico
pode ser suspeito. Este é o verdadeiro suspeito de glaucoma,
em minha mente. Desculpe-me sobre esta confusão.
P: É importante para as pupilas serem dilatadas durante
um exame clínico para glaucoma?
Dr. Jeff Henderer: Dilatar as pupilas permite um melhor exame
do nervo óptico.
P: Dilatar as pupilas representa um problema para o glaucoma pigmentar?
Dr. Jeff Henderer: Dilatação da pupila faz com que
o pigmento se disperse e, em alguns casos, tem sido associado
com um aumento na PIO. Em minha experiência, isto é
raro. Eu acho que o risco de uma elevação da PIO
é enormemente compensado pelo benefício do exame
do nervo óptico. Assim, eu dilato as pupilas.
P: Considerando que a dilatação das pupilas pode
ser um problema para pacientes com glaucoma de ângulo estreito,
o que o senhor faz?
Dr. Jeff Henderer: Boa pergunta. Para o paciente com glaucoma
de ângulo estreito, é uma questão de julgamento.
Se o ângulo for muito estreito (e não há nenhum
entendimento sobre o que é muito estreito), então
eu não dilato. Eu me esforço ao máximo para
olhar o nervo através de uma pupila não dilatada.
P: Pacientes com ângulos estreitos cujas pupilas são
dilatadas para um exame do nervo óptico deveriam ter suas
PIO verificadas durante a dilatação?
Dr. Jeff Henderer: Isso não é uma má idéia.
Alguns médicos gostam de ver evidência de elevação
de PIO com dilatação para decidir se o ângulo
é estreito o bastante para tratar com LASER. Isto não
é, em minha experiência, o procedimento mais comum.
Geralmente, a decisão é baseada no pressentimento
acadêmico do médico sobre o que é muito estreito.
P: Com que freqüência um paciente deveria ter um exame
com o olho dilatado?
Dr. Jeff Henderer: Eu gosto de fazer um exame com o olho dilatado
em um paciente uma vez por ano, e observar o nervo a toda visita,
sem dilatar as pupilas.
P: Você pode ver o nervo óptico mais claramente durante
um exame com o olho dilatado?
Dr. Jeff Henderer: Mais ou menos. Isso pode ser verdade se há
uma pupila realmente pequena (por exemplo, se o paciente está
usando Pilocarpina), ou se uma catarata está presente.
A real razão é que uma pupila maior permite ao médico
usar uma lente mais poderosa para obter uma visão mais
ampliada, estereoscópica.
P: É melhor fazer um teste de campo visual enquanto as
pupilas estão dilatadas ou não dilatadas? Eu fiz
os testes de ambos os modos no consultório do mesmo especialista
em glaucoma.
Dr. Jeff Henderer: Em minha experiência, é mais importante
repetir os testes de campo visual do mesmo modo a cada vez. Isso
permite a melhor comparação de "bananas com
bananas." Para mim, se o paciente está usando pilocarpina,
eu dilato. Caso contrário, não.
P: Meus olhos e cabeça doem ligeiramente por horas depois
da dilatação. Esta é uma reclamação
comum ou relacionada ao glaucoma?
Dr. Jeff Henderer: Se a dilatação fizer a PIO subir,
isso deve causar uma dor de cabeça. O fato das luzes serem
mais luminosas poderia causar os mesmos problemas. Eu não
diria que é comum, nem eu diria que é glaucoma.
Você precisaria conhecer a PIO.
P: Quando meu glaucoma ficou descontrolado, meu oftalmologista
me enviou a um especialista em glaucoma, mas não me deu
nenhum prontuário para levar. Ele disse que o especialista
em glaucoma preferiria chegar à sua própria conclusão.
Isto é comum? Embora eu fosse um paciente de longa data
do oftalmologista, eu não voltei mais.
Dr. Jeff Henderer: Bem, é difícil saber as circunstâncias
exatas lá, mas eu, pessoalmente, gosto de ver esses prontuários.
Dão-me uma idéia da história da PIO, e se
houver testes de campo visual antigos, isso ajuda também.
Além disso, os prontuários deveriam me dar uma idéia
do nervo óptico de vários anos atrás, e então
eu posso tentar determinar se ocorreu mudança.
P: O assistente do meu optometrista usou um tonômetro portátil
recentemente para medir minha PIO. Tais tonômetros são
precisos?
Dr. Jeff Henderer: Há uma variedade de tonômetros
que são todos razoavelmente precisos dentro da faixa de
PIO normal. Eu suponho que o mais preciso ainda é o tonômetro
de Goldman, mas às vezes eu também uso tonometria
portátil.
P: Embora minha acuidade visual seja medida a cada visita ao meu
especialista em glaucoma, com que freqüência eu deveria
ver meu optometrista para uma prescrição atualizada
de miopia? Além disso, eu deveria esperar mudanças
na acuidade visual depois de trabeculectomia bilateral?
Dr. Jeff Henderer: Eu acho que uma vez por ano, ou dois, você
deveria ter uma refração. Em geral, eu não
espero que a acuidade visual mude depois da cirurgia. Isso não
é dizer que elas não ocorrem, devido a uma mudança
na catarata ou uma mudança na relação da
lente para a córnea depois que a PIO é reduzida.
Mas, em geral, eu gosto de ver a PIO retornar para níveis
próximos aos do pré-operatório dentro de
uma ou duas semanas.
P: Após uma cirurgia de catarata com uma LIO (lente intra-ocular)
implantada, há alguma razão para a acuidade visual
mudar com o passar do tempo naquele olho?
Dr. Jeff Henderer: Pergunta difícil. Em princípio,
eu teria que dizer que não há nenhuma razão
para a acuidade visual mudar. Na realidade, ela pode e às
vezes muda. Por que isso acontece, eu nunca realmente investiguei.
Lembre-se que a lente só é responsável por
cerca de um terço do poder refrativo do olho. A córnea
é responsável por aproximadamente dois terços.
Talvez algumas mudanças corneanas aconteçam com
o passar do tempo em alguns pacientes.
P: Como a avaliação clínica difere de 10
ou 15 anos atrás?
Dr. Jeff Henderer: Nós não temos falado muito sobre
imagem do nervo óptico. Esta é a maior mudança
nos últimos 10 anos. Estas máquinas têm grande
potencial, especialmente para detectar mudança. Mas nós
ainda estamos tentando determinar a melhor maneira de usá-las.
P: A imagem do nervo óptico é o mesmo que HRT (Tomografia
de Retina de Heidelberg)?
Dr. Jeff Henderer: A HRT é um dos três dispositivos
de imagem geralmente usados. A HRT funciona medindo a quantidade
de borda neuro-retiniana no nervo. Os outros dois (a OCT e GDx)
funcionam medindo a quantidade de tecido nervoso na retina que
cerca o nervo óptico. Nós não sabemos se
um é melhor que o outro, assim nós nos referimos
a eles todos como dispositivos de imagem.
P: Você pensa que os médicos poderiam ficar muito
dependentes dos dispositivos de imagem e um dia não olhar
o olho? A última vez que eu tive uma refração,
ela foi feita por uma máquina e um técnico.
Dr. Jeff Henderer: Ponto importante! Eu ouvi falar de histórias
sobre médicos que não olham o nervo óptico
e confiam somente na imagem. Isso é um erro. Dispositivos
de Imagem não podem detectar alguns aspectos do nervo,
como hemorragias no disco e palidez do nervo, que podem ajudar
um médico a decidir se a doença está presente.
P: A megalopapila é vista muito freqüentemente por
especialistas em glaucoma? Eu li que é freqüentemente
diagnosticada erroneamente como glaucoma.
Dr. Jeff Henderer: Eu não vejo muito freqüentemente
megalopapila. É uma variante congênita, e eu acho
que se parece com glaucoma, porque há uma grande escavação.
Porém, é uma variante normal. Eu certamente vejo
nervos de tamanhos diferentes, uma vez que os seres humanos têm
nervos grandes e pequenos, da mesma forma que nós temos
pés grandes e pequenos. É muito importante medir
o tamanho do nervo óptico e uma das razões pelas
quais nós gostamos do sistema de estágios do disco
de Spaeth.
[A Nota da editora: Veja destaques da conversa, 15 de fevereiro
de 2006, "Escala de Probabilidade de Dano ao Disco".]
P: Os nervos diferem em tamanho por causa do número de
células, ou do tamanho das células, ou ambos? Qual
é o ideal?
Dr. Jeff Henderer:
Bem, eu não sei exatamente por que os nervos diferem em
tamanho. Eu acho que é genético, da mesma maneira
que o tamanho do pé é genético. Mas o que
eu sei é que todos têm aproximadamente o mesmo número
de células ganglionares. A conseqüência é
que para pessoas com nervos grandes, o nervo não será
preenchido pelas células, enquanto nervo pequeno será.
Assim, nervos grandes têm grandes escavações
e nervos pequenos não. Chamar uma grande escavação
de "glaucoma" não é possível, a
menos que você saiba o contexto do tamanho do disco.
P: Foi-me dito
que eu perdi aproximadamente 50% da minha visão. Eu tenho
glaucoma pigmentar. Isto significa que eu perdi cerca da metade
das fibras que compõem o nervo óptico?
Dr. Jeff Henderer:
Você deveria pensar assim, mas não é assim.
Acontece que nós temos aproximadamente um milhão
de fibras nervosas. Porém, nós não precisamos
um milhão para ver. Na realidade, nós perdemos aproximadamente
de 5.000 a 7.000 por ano apenas por estarmos vivos. De qualquer
maneira, cerca de 40% do nervo tem que estar danificado antes
dos testes de campo convencionais detectarem dano. Isso depende
um pouco do local do dano, mas é uma regra geral.
P: Como nós
podemos saber a porcentagem de visão que perdemos?
Dr. Jeff Henderer: Esta é uma pergunta tão boa
que você pensaria haver uma resposta simples. Mas não
há. Você pode fundamentá-la na quantidade
da perda de campo, ou da acuidade visual (dependendo da causa
da perda de visão). Há um teste de campo especial
chamado Campo de Esterman que gerará um "escore de
eficiência" que pode ser interligado às diretrizes
de deficiência visual da AMA [Nota do tradutor: Associação
Médica Americana]. Eles são complicados. Por exemplo,
acontece que, se você é completamente cego de um
olho e normal no outro, você é considerado algo como
75% visualmente incapacitado e 24% totalmente incapacitado.
Moderador: Obrigado, Dr. Henderer. Nós estamos ansiosos
por sua próxima visita.
Dr. Jeff Henderer: De nada. Boa noite a todos.
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