Relação Risco-Benefício da Intervenção
Cirúrgica
Destaques da conversa
24 de maio de 2006
Edição: Norma Devine
Tradução: Francisco M.
Revisão Técnica: Dr. João França
Lopes
Na quarta-feira, 24 de maio de 2006, o Dr. Rick Wilson, especialista
em glaucoma do Wills, e o grupo de conversa sobre glaucoma discutiram
“Relação Risco-Benefício da Intervenção
Cirúrgica”.
Moderador: Bem-vindo
de volta à conversa, Dr. Wilson. Esta noite nosso tópico
é "Relação Risco-Benefício da
Intervenção Cirúrgica". Como essa relação
é determinada?
Dr. Rick Wilson:
É uma decisão complexa que verifica o peso da PIO
(pressão intra-ocular) no grau de dano ao nervo óptico,
e a idade e saúde do paciente, especialmente saúde
circulatória. Outras considerações são:
quão bem o paciente está indo com medicação,
o quanto eu acredito que o paciente é fiel à prescrição
da medicação, os sentimentos do paciente sobre cirurgia
e quanto risco a cirurgia terá. Olhos que tiveram cirurgia
prévia, ou se o paciente estiver usando medicamento para
tornar o sangue menos espesso, aumenta o risco cirúrgico.
Pacientes mais jovens, especialmente aqueles com íris e
pele escuras, têm um prognóstico menos favorável
para cirurgia, que tem que ser levado em conta.
P: Por favor, explique
o que o senhor quer dizer por saúde circulatória.
Dr. Rick Wilson: Eu quero dizer a totalidade de artérias
abertas ou estreitas, hipertensão, doença do coração,
quão aderente são as células vermelhas do
sangue, se doença vasoespástica, como enxaquecas,
está presente, e se a pressão sanguínea é
suficientemente alta. Pressão arterial baixa é um
fator de risco sério para glaucoma.
P: Assim, não fidelidade ao tratamento pelo paciente desempenha
um papel na decisão do médico?
Dr. Rick Wilson: Sim. Não fidelidade ao tratamento com
medicação é uma boa razão para realizar-se
uma trabeculoplastia a LASER. Os medicamentos pós-operatórios
não são tão cruciais para o sucesso quanto
são com uma trabeculectomia.
P: Por que íris escuras têm um prognóstico
menos favorável para cirurgia?
Dr. Rick Wilson: Parece que quanto mais escura a pigmentação,
mais tecido de cicatrização um paciente forma, em
média.
P: Uma vez que a saúde física do paciente é
importante ao tomar-se uma decisão sobre cirurgia, por
que o senhor acha que o meu oftalmologista e o meu especialista
em glaucoma nunca perguntaram sobre minha pressão sanguínea,
etc.?
Dr. Rick Wilson: Isso é difícil dizer. Seria uma
boa pergunta para você fazer a eles.
P: Qual é mais arriscado, uma trabeculectomia ou cirurgia
de implante? Quanto tempo cada uma dura?
Dr. Rick Wilson: Um recente estudo sugeriu que um ano depois da
cirurgia, a trabeculectomia tem ligeiramente mais complicações
que a cirurgia de implante, e os implantes estavam durando um
pouco mais. Implantes têm poucas complicações
em termos de vazamentos e infecções a longo prazo,
mas a PIO é usualmente significativamente mais baixa com
as trabeculectomias.
P: O senhor acha que aquele estudo poderia persuadir os médicos
a executarem mais implantes, ao invés de trabeculectomias?
Dr. Rick Wilson: Sim. Eu acho que nós estaremos pensando
em possível cirurgia de implante agora em pacientes que
não requeiram uma PIO abaixo de 16 mmHg (meu limiar).
P: Eu perguntei sobre implantes porque eu posso precisar de um.
Minhas pressões estão variando entre 11 e 15 mmHg.
Estou usando três tipos de colírio e tive trabeculectomias.
Eu ainda estou perdendo visão.
Dr. Rick Wilson: Com PIO de 11 a 15 mmHg, é improvável
que um implante em forma de prato, não importa quão
grande, abaixe muito mais sua PIO. Ele a nivelaria, o que poderia
ser tudo o que você precisa se tiver um pico de PIO não
detectado durante o dia ou a noite. Um implante subseqüente
poderia ser suficiente para baixar sua PIO até 9 a 12 mmHg.
P: Por que os médicos, na maioria das vezes, preferem realizar
trabeculectomias primeiro, em vez de implantes? É apenas
devido à PIO mais baixa?
Dr. Rick Wilson: Isso, e convenção. Nós éramos
todos treinados para realizar uma trabeculectomia como nossa cirurgia
de primeira-linha depois da trabeculoplastia à LASER, evitando
implantes até que a trabeculectomia falhasse, ou não
houvesse mais conjuntiva sem cicatrização para executar
uma trabeculectomia.
P: Se não houver mais lugar por causa de várias
trabeculectomias, sempre há lugar para um implante?
Dr. Rick Wilson: Normalmente, sim. O tubo leva o fluido a um prato
posterior no equador do olho, quer dizer, meio-caminho para trás.
A conjuntiva não cobre aquela área, que está
debaixo da borda orbital. Assim, a cicatrização
não é um problema, embora ainda possa impedir a
inserção do implante.
P: A cirurgia à LASER, trabeculoplastia, é quase
livre de risco?
Dr. Rick Wilson: Não. São vistas inflamação
e elevações de PIO ocasionalmente. Mas, se a seleção
do paciente é boa, e a técnica excelente, os riscos
são leves e os resultados bastante bons. Na maioria das
vezes, quando os médicos realizam trabeculoplastia em pacientes
que têm pouca chance de sucesso, eles encontram dificuldades.
P: Quais são as chances de que mais que duas TLS (trabeculoplastia
à LASER seletivo) possam em algum momento serem consideradas
seguras ou tentadas?
Dr. Rick Wilson: Eu diria que as chances são 50-50, mas
dependeria de quanto tempo decorreu entre as TLS.
P: Se ou quando o efeito da TLA (trabeculoplastia à LASER
de argônio) ou da TLS desaparece, as pressões intra-oculares
sobem além dos níveis pré-cirúrgicos?
Em outras palavras, a trabeculoplastia no final das contas danifica
seja qual for a função que o trabéculo possa
ter tido em primeiro lugar?
Dr. Rick Wilson: Boa pergunta. A TLS mais nova é muito
menos prejudicial que a TLA. Quando o efeito estiver perdido,
a PIO pode voltar a uma linha ascendente que foi suspensa pelo
laser. Se a pressão começa onde parou na linha,
ou atinge a linha nesse valor mais tarde no tempo--então,
mais alto na linha--não está claro.
P: Eu entendo que, na Inglaterra, as trabeculectomias são
freqüentemente um tratamento de primeira linha. Isto é
grandemente um assunto de convenção? O que fazem
outros países com medicina socializada?
Dr. Rick Wilson: Eu acho que isso varia consideravelmente. Eu
acharia que na Inglaterra, com o advento das prostaglandinas,
eles devem aderir à medicação por um pouco
mais de tempo do que eles antigamente faziam. A prática
original começou porque vários estudos na Inglaterra
mostraram que inicialmente pacientes operados tinham mais sucesso
que aqueles usando medicação e tratamento à
LASER.
P: Eu sou uma mulher com 55 anos, com hipertensão controlada.
Em janeiro e março de 2005, tive trabeculectomias bilaterais.
Agora a pressão no olho que teve a cirurgia em março
subiu para 30 mmHg. Estou usando Lumigan neste olho, e me foi
dito que eu preciso ter a bolha “agulhada”. Alguma
idéia, comentários, ou palavras de encorajamento?
Algum aviso sobre o período de recuperação,
riscos, porcentagens de sucesso, etc?
Dr. Rick Wilson: Minhas idéias, comentários e palavras
de encorajamento variam consideravelmente, dependendo em como
o cirurgião executa o procedimento e quais foram seus resultados
passados com aquela técnica. Normalmente, uma revisão
cirúrgica da bolha tem pelo menos uma chance de 50% de
funcionar quando 5-FU ou mitomicina-C é usado. As complicações
são normalmente transitórias, mas eu tive um par
de pacientes com PIO muito baixa a longo prazo.
P: Quais são minhas opções?
Dr. Rick Wilson: Eu acharia que suas opções seriam
medicamento, “agulhamento”, uma trabeculectomia repetida,
ou um implante. Porém, se seus nervos ópticos mostram-se
danificados e a PIO está no topo do normal, posso ver como
seu especialista em glaucoma poderia ficar nervoso e querer colocá-lo
em uma zona de PIO mais segura.
P: A intervenção cirúrgica oferece riscos
diferentes para tipos diferentes de glaucoma?
Dr. Rick Wilson: Sim. Glaucoma neovascular é muito difícil
de tratar. Glaucomas inflamatórios são ligeiramente
menos difíceis, mas sempre mais difíceis que o habitual.
P: Quais são as chances da formação de catarata
imediatamente após uma trabeculectomia?
Dr. Rick Wilson: Normalmente, pacientes que já têm
uma catarata vêem suas cataratas piorarem a uma taxa mais
rápida do que as cataratas estavam antes da cirurgia. É
normalmente só com a complicação dos descolamentos
de coróide e PIO muito baixa pós-operativamente
que o olho não produz humor aquoso suficiente para prover
o cristalino com oxigênio e nutrição. Então
uma catarata se forma rapidamente.
P: O senhor não tem dito que não há muito
propósito em se fazer cirurgia de catarata antes que a
catarata cause o desconforto do paciente e visão dificultada,
especialmente se há outros problemas oculares que fazem
a cirurgia mais arriscada?
Dr. Rick Wilson: Sim. Como regra geral, a cirurgia de catarata
deveria ser feita quando os pacientes acham a visão diminuída
um obstáculo, impedindo-os de fazer algo que eles querem
fazer, e não só uma chateação.
P: Minha filha de dois anos nasceu com glaucoma, sofreu 11 operações,
e realmente não teve pressão ocular estável.
(Suas pressões - olho direito, 18 mmHg; olho esquerdo,
16 mmHg - estão agora tendendo para normal.) Se suas pressões
não se estabilizarem, qual seria o benefício de
digamos, uma trabeculectomia em vez de válvulas de Ahmed
(substituições, revisões, etc)? Sua escavação
era .7 direito e .5 esquerdo, com alguma visão periférica
perdida.
Dr. Rick Wilson: Depois de todas essas cirurgias, pode não
ser possível fazer uma trabeculectomia, uma vez que lá
pode não haver conjuntiva virgem. Se a PIO subir novamente
e houver boa conjuntiva, talvez uma trabeculectomia deva ser considerada.
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