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Derivações Aquosas da Câmara Anterior do Olho para um Reservatório Posterior


por Richard P. Wilson



Glaucoma é uma doença em que o mecanismo de drenagem do olho ficou bloqueado. Como um olho normalmente produz a vida toda um fluido chamado humor aquoso, este fluido não tem para onde ir e volta para ele. Isto cria uma pressão dentro do olho que lesa o nervo óptico. O tipo mais seguro e mais simples de cirurgia para reduzir a pressão intraocular é a trabeculectomia, um procedimento que cria uma válvula sobre o olho. Isto permite que o aquoso penetre sob esta válvula e seja absorvido sob a conjuntiva, a camada clara mais externa do olho, e passe até a corrente sangüínea. Há pouca chance deste procedimento funcionar se houver inflamação, cicatrizes excessivas de cirurgias anteriores ou expectativa de cicatrização pouco usual. Nestes casos, o próximo passo é uma derivação aquosa, um minúsculo tubo de plástico ligando a câmara anterior do olho a um reservatório, colocado a meio caminho da parte posterior do olho. O reservatório é uma lâmina que impede que a camada superior do olho se cole à parede do olho e impeça a drenagem. O humor aquoso é drenado através do tubo para o alto destas lâminas e depois é absorvido na linfa e nos vasos sangüíneos em torno do olho.

 

O procedimento cirúrgico é muito mais extenso do que uma trabeculectomia. Em geral demora de 45 minutos a uma hora e meia ou mais, caso o vítreo gelatinoso que fica no interior do fundo do olho tenha de ser removido ou caso sejam encontradas muitas cicatrizes de cirurgias anteriores. Um dos melhores aspectos do procedimento é que a grande maioria do trabalho é realizada fora do olho. A única parte intraocular do procedimento é uma pequena incisão feita por uma agulha onde o tubo deve ser inserido. O tubo é então colocado através desta incisão e um pequeno fragmento da esclerótica do doador (a parede branca do olho) ou fáscia (o material resistente que une os músculos) é suturado sobre a entrada do tubo dentro do olho. Isto melhora a segurança do procedimento.

 

As principais complicações observadas com as derivações aquosas são causadas pela queda repentina na pressão ocular em olhos que estão acostumados a uma pressão elevada.

 

Antes da operação havia muito pouco espaço para o fluido sair do olho. Por isso, o olho produzia uma quantidade menor que o normal de fluido e conseguia manter uma pressão alta no olho. De repente, é feito um novo dreno destinado a criar um escoamento normal ou mesmo um pouco maior que o normal. Muitos olhos, especialmente aqueles que sofrem de glaucoma e outras doenças ou tiveram sua capacidade de produção de fluido reduzida por medicações no correr dos anos, têm dificuldade para mudar as engrenagens e produzir mais fluido. Isto pode resultar em um período em que o olho pode parar de produzir fluido e permite uma criação de fluido entre as camadas do olho. Em muitos casos, isto ocorre espontaneamente e o olho pouco a pouco volta a produzir uma quantidade normal de fluido.

 

Em alguns casos, no entanto, o fluido entre as camadas do olho vai precisar ser drenado e o interior do olho preenchido até atingir uma pressão normal. Esta aceleração do bombeamento freqüentemente resulta na retomada quase imediata da produção normal do humor aquoso. Para evitar os problemas associados à queda repentina na pressão, pode ser usada uma sutura absorvível para reduzir o fluxo através do tubo. Cortes na lateral do tubo entre a câmara anterior do olho e a sutura controlam a pressão intraocular mais ou menos durante uma semana após a cirurgia. Então ocorre cicatrização em torno dos cortes e é requerida medicação para controlar a pressão até que o fio é absorvido ou removido e a derivação aquosa comece a funcionar apropriadamente.

 

Depois que a cirurgia é cicatrizada, o tubo é quase impossível de ser visto sem o auxílio de um microscópio. As lâminas ficam colocadas bem atrás e podem ser vistas se o olho for virado completamente para baixo e a pálpebra for erguida bem alto. Do contrário, este reservatório também fica invisível sob a pálpebra superior. Como o procedimento é bastante extenso fora do olho, há um desconforto leve a moderado durante o período pós-operatório inicial, mas este diminui rapidamente.

 

Complicações potenciais incluem o contato do tubo com a córnea. Se este fica acima de uma área pequena, só resulta um dano localizado e não é necessária ação adicional. Se houver contato de todo o tubo com o revestimento da córnea, o tubo pode precisar ser reposicionado.


O tubo pode também pode entrar em contato com o cristalino, e disso podem resultar pequenas cataratas localizadas que precisarão ser removidas.

 

Muito raramente, o tubo pode sofrer erosão através da camada superior transparente do olho que o reveste. Isto requer um reparo cirúrgico. Infecções e sangramento são possíveis, mas até esta data não têm constituído um problema em nosso seguimento.

 

Se não houver nada que impeça o gel vítreo de trás do olho de vir para frente e ser capturado pelo tubo que deriva o fluido para o reservatório, este terá de ser removido. Isto é feito com uma pequena agulha que corta e depois suga o gel vítreo, substituindo-o por um fluido aquoso. A remoção do gel vítreo aumenta o potencial de sangramento entre as camadas do olho, ou de uma dilaceração na retina se ele romper a retina, possivelmente provocando um descolamento da retina. Este procedimento com freqüência provoca complicações mais sérias do que o próprio procedimento da derivação.

 

As derivações aquosas são em geral bastante bem sucedidas, considerando a natureza desesperada dos olhos que são operados. Aproximadamente 15% dos procedimentos têm tido de ser revisados se a construção do tecido cicatricial em torno do reservatório posterior for muito espessa para permitir a passagem do humor aquoso. Este é um procedimento muito simples e de modo algum parecido com o procedimento original. Uma pequena incisão é feita sobre a lâmina e o tecido cicatricial é removido. A incisão é então suturada. Se isto for feito, o índice de sucesso do procedimento é de pelo menos 75% nos glaucomas difíceis e muito mais elevado em alguns dos glaucomas menos difíceis.

 

Em suma, as possíveis complicações derivadas deste procedimento incluem, mas não são limitadas a:

 

 

  1. perda da visão
  2. necessidade de outra cirurgia: a) para estimular o fluxo do fluido para dentro do olho; b) para remover o gel vítreo ou o cristalino para promover a circulação normal do fluido dentro do olho; c) remover o tubo de silicone se a pressão do olho continuar muito baixa ou se o tubo produzir erosão na superfície, causando problemas
  3. desconforto e dor persistentes que foram encontradas em um paciente, sem requerer remoção da derivação
  4. deformidade ocular ou aparência ocular alterada devido à cirurgia
  5. hemorragia ou deterioração catastrófica que poderia requerer a remoção do olho

 

 


Como foi anteriormente mencionado, complicações menores como uma pressão muito baixa durante um período curto de tempo depois da cirurgia têm sido comuns com este procedimento, mas complicações importantes têm sido raras. Estas complicações têm de ser olhadas à luz das alternativas. A única outra alternativa viável é um procedimento destrutivo que tem como objetivo destruir a parte do olho que produz o fluido. Esta destruição do corpo ciliar reduz a quantidade de produção aquosa no olho para que ela corresponda à quantidade de fluido que escoa do olho. A pressão intraocular pode então ser controlada com medicação.

 

Como seria de se esperar com este tipo de procedimento destrutivo, são encontradas uma quantidade substancial de inflamação com uma visão reduzida durante algum tempo após a cirurgia, e uma chance maior de visão reduzida permanentemente. Há também uma possibilidade de o olho não produzir fluido suficiente, entrando em colapso como um balão sem ar suficiente em seu interior. Embora isto não seja doloroso, a acuidade visual é deficiente e a pálpebra cai. A última alternativa, é claro, é não fazer nada. Isto em geral resulta em uma perda de visão gradual, ou ocasionalmente mais rápida, e, em alguns casos, uma dor que acaba impondo a remoção do olho.

 

O entendimento das alternativas situa o procedimento do tubo de derivação como a cirurgia de escolha. É uma cirurgia difícil, propensa a complicações menores e com possibilidade de complicações importantes. Em muitos casos de glaucoma complicado, esta é a alternativa mais segura e com a maior chance de controlar o glaucoma e preservar a visão

 

 

 

 

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